Todo mundo tem direito de ser
ou de não ser se for melhor
porque até mesmo o pior também se pode ser
Ninguém precisa ser herói
Sendo vivo já tá bom
Não sendo igual já funciona
Tendo uma cor diferente
ainda que nem se note,
mesmo que vermelhos por dentro,
falando ou não a mesma lingua
gostando ou não das mesmas frutas
somos amigos
somos irmãos
estamos juntos
arco-íris ou não
mulheres, homens, artistas e anjos
amamos pelo que somos
e não pela nossa anatomia
Sexismo
Infância
O armário antigo requícios do que fomos
E o que fizemos, o que pudemos fazer, ficou guardado, esquecido, junto à poeira e à memória dos triunfos e fracassos
O cinto brilhante, que guardava mil soluções
O anel, que podia tornar real tudo que a imaginação quisesse
A capa, vermelha como o sangue que demos, que balançava com o vento, pelos céus, como uma bandeira
Nossa bandeira
Sabíamos tão pouco
Eramos tão novos
E no entanto, fomos heróis
Escrita em Lágrimas
Primeiro eu pego o papel
Começo a vomitar todo pensamento
E sangra pô-lo para fora
Minha mente e mãos embebidas de sangue
Cada procura nas esquinas da memória
Em busca de inspiração
Lacera minha alma
Eu sinto meu sorriso dissolver-se em lágrimas
Não é tão difícil
E lá está uma poesia bonita
Calcada na tortura própria
É lamentável
Mas a tristeza insiste em ser bela
A Solidão e a Cidade pt. 2
Estou só
As frutas caem uma por uma
As folhas também voam com o vento
O casal de namorados não passa mais por aqui
As crianças não vem mais brincar
A grama vai secando
Até o sol vejo pouco
A lua anda minguando
Poucas gotas de chuva vem me sustentar
Eu estou só
Com meu tronco velho, cada vez mais seco
E essas raízes quase mortas que me prendem nessa terra
Perdidas no meio da cidade
me fazem ter saudade
da primavera da minha vida
A Solidão e a Cidade pt.1
Despenca o céu
Gota por Gota
Cai no chão
Destrói, corrói
Cai meu chão
A poeira mistura-se ao ar
Tinge a cidade de cinza
Nessa paisagem monocromática
Procuro um sinal
Um piscar de olhos
O estalar dos lábios
Talvez uma leve feição
Numa moldura incoloar
Tento capturar o seu sorriso
Que era sol no outono
Mas como fixar-te em minha mente?
De certo, não com essas tintas sem cor da minha íris seca
A cidade segue cinza
Bem como meu coração
Sujo, quebrado e inerte.
Éramos fogo
No meio da noite eu procuro uma voz
O cheiro forte de café, cigarro, sorvete e sexo ainda está no quarto
No quarto as fotos, as lembranças, o sangue
O sangue seco do vermelho das tuas unhas fincadas nas minhas costas
A tinta, os papéis, ainda estão pela casa
os nossos retratos que choram, queimados
As palavras sangram dos poemas que te fiz
Que você fingiu ler, gostar
E que me doiam de fazer
Mas a poesia mais Bonita ainda me corta ao meio
Cada vez mais fundo, junto com a saudade sua
Ainda escrevo, reescrevo, cubro o contorno dos traços do teu nome
Cravado em minha alma
Rotina
Nossas mãos não se tocam mais
Nossos pés caminham em decompasso
Nossas carícias não geram fagulhas
Teu sorriso não mais me inspira
Meu relógio não sincroniza com teu tempo
Tua voz ao falar no meu ouvido não arrepia
Não compartilhamos o mesmo cigarro
Nem ao menos brigamos
Em fato já não nos importamos
Roda de samba que não queima
Nosso amor caiu em desuso
Tragar
Trago em mim saudade
Trago em ti desejo
Trago
Até que não sobre esse corpo
Até restarem somente as cinzas do que fomos
Brasa amor e loucura
Juntos, abraçados, enrolados
Em lençol de seja
Bem querer
Eu quero mesmo que você me ame
E que se puder seja direita e educada
Que não entre fazendo bagunça
Que saiba dar valor à minha hospitalidade
Eu quero, mas quero mesmo
Que você saiba dizer, apenas, até logo
Que sinta saudade
E que de verdade você queira um abraço e um beijo
Eu realmente quero
Que você seja carinhosa
E que saiba enxugar as lágrimas
Mesmo as de quem não chora
Eu quero
Que você me queira
Como eu te quero
E que nunca saia dessa casa que eu te dei
Esse amor em coração
Crise
Acontece comigo
Acontece com você
Sinto fome, mas não quero comer
Mesmo a música mais linda eu não suporto ouvir
Parece mesmo que o mundo anda contra mim
Mesmo as coisas boas
fazem tudo piorar, tudo ficar confuso
Acabo tropeçando, caindo
mas mesmo me arrastando eu vou seguindo meu caminho
Sem rimar, sem sorrir e sem chorar
Um monte de nada em tudo que vejo
E aquele vazio na alma
De quem não sabe o que quer pra si
RSS - Posts